terça-feira, abril 05, 2011

triste

Sou triste.

Sou da tristeza própria
de todas as coisas sem razão.

Sou a pele áspera dos dias
cinzentos sem saber,
a haste quebrada
a vogal muda
das árvores que tombam sozinhas.

Tenho só esperanças de miragem...

Trago as neblinas todas de Novembro
anoitecidas no olhar.

E que me importa o dia
que me importa o sol ou os pássaros
se a vida afinal é apenas esta margem
da fome de voar?

quarta-feira, outubro 13, 2010

manhã de sonho

Encontro-te de manhã
na solidez amável
dos objsctos familiares
- a certeza das coisas -
o corpo abandonado ainda
à doce luxúria de largar
preguiçosamente os braços
da noite vencida.

Encontro-me de manhã
na firmeza dos rumos,
na cartografia apaixonada
de um destino oculto.
Sei-me manhã
ganha a noite
nos teus braços.

E pelo meio ainda nos restam
estes dias espantados,
até que a noite nos perca
outra vez assim tão abraçados,
Até que sonhemos juntos mais
noites e dias acordados.

quarta-feira, janeiro 20, 2010

espera

Tenho asas de arder
nos teus segredos
e uma alma lançada
às alturas dos teus lábios.

Tenho uma simetria insuspeitada
de não querer ser outra coisa
ponto
linha
traço
a medir as dimensões
do teu desejo afogueado.

Horizontes cancelados
olhares anulados
e pensamentos que não cabem em mim

Trago o rosto marcado
de esperança adiada.
E p'ra incendiar a alvorada:
duas palavras, só.

Chegaste, enfim.

domingo, janeiro 10, 2010

navego

Navego.

Talvez quisesse ficar
na praia imóvel,
a apagar silêncios desenhados na areia
a vida toda na ponta dos dedos,
mas navego.

Navego.
Única certeza
em cheio no meio do dia
como o sol incontornável
que se me acende nos lábios.

Navego.
Única verdade
sem rotas
nem meridianos de obsessão:
Chegar?
Chegar é nada!

Navego.
E trago aves douradas
a cantar na amurada
a canção do mar a que me entrego.

Para onde?
Não sei.
Mas navego.

quarta-feira, dezembro 23, 2009

sob sortilégio

Hás de me dar
esse teu poder
das estações
os teus outonos
de húmida mãe dos campos
este Dezembro de acreditar
nos Janeiros do futuro
os líquidos Maios
oceânicos dedos
que derramas no meu peito
a cereal claridade
das tuas tardes
de verão.

Hás de me dar
essas palavras
voláteis
verdes
vivas
de que compões
as tuas águas de perdão.

Hás de me dar
dos frutos
das horas
dos nomes
o sabor verdadeiro
deste barro primeiro
em que me moldo
na tua mão.

[com o devido obrigado à Sophia]

quarta-feira, dezembro 16, 2009

Soneto XLV

No estés lejos de mí un solo día, porque cómo,
porque, no sé decirlo, es largo el día,
y te estaré esperando como en las estaciones
cuando en alguna parte se durmieron los trenes.

No te vayas por una hora porque entonces
en esa hora se juntan las gotas del desvelo
y tal vez todo el humo que anda buscando casa
venga a matar aún mi corazón perdido.

Ay que no se quebrante tu silueta en la arena,
ay que no vuelen tus párpados en la ausencia:
no te vayas por un minuto, bienamada,

porque en ese minuto te habrás ido tan lejos
que yo cruzaré toda la tierra preguntando
si volverás o si me dejarás muriendo.

Pablo Neruda

Cien sonetos de amor

sexta-feira, dezembro 11, 2009

multipolar

A espaços sofro
se te sei longe
imersa imensa
nas neblinas azuis
do teu labirinto obscurecido.

A espaços corro
essa distância breve que medeia
da verdade dos teus olhos
a esta minha estranha ideia
de te ser.

Mas a espaços
voo
nesse silencio dourado
do teu amor oferecido.

Mas a espaços
ergo com meu braço
neste mundo não que temos
o mundo imenso que nos falta ainda ter.

A espaços morro
na crueza bruta
da montanha nua
frontal
na nossa frente.

Mas a espaços
conheço
que montanhas movem os teus dedos,
tão fácil,
tão simplesmente.

A espaços desespero. A espaços acredito.
A espaços sei. A espaços esqueço.
A espaços sou pedra. A espaços sou aço.
A espaços sou grito primeiro
deste corpo estrangeiro
em que novo
nasço.

quinta-feira, dezembro 10, 2009

Caminho

Trazes-me
das profundezas das minhas dores oceânicas
para o sol inconstante dos teus olhos.

Ergues-me
cabeça corpo coração
no magnetismo doce das pontas dos teus dedos.

Lavas-me
de água que inventas na minha pele
das minhas velhas lágrimas inúteis.

Dás-me
Mais que angústia,
mais que olhar
mais que paixão
caminho
rasto de areia
a brilhar nos teus passos
até ao fim dos medos.

sábado, novembro 14, 2009

chuva

Entregas-te
doce
ao devaneio dos ombros
libertos das sombras
que deixámos
a morrer sobre a areia.

Alimentas-me
com palavras corpo
do choro de menina
do poder de mulher
inteiras a meu lado.

Denuncias
assim tão simplesmente
esta esperança que sou
do teu verão inesperado
no silêncio das colinas.

Abres a janela
e ficas a ver os pássaros
que te imitam a pele.

Chove agora,
feliz
desfaço-me em neblinas.

domingo, novembro 08, 2009

teu

Ensina-me
dessa tua língua
secreta
as difíceis
palavras proibidas.

Dá-me essa morte
de te sentir perto
e deixa-me sangrar
as tuas partidas.

Despe-me os orgulhos
e faz-me do barro dessas tua dores antigas
e pinta-me
da exacta cor da tua escuridão.

Quero nascer
assim
oculto
nas esperas distraidas
do silêncio
da tua mão.

sexta-feira, novembro 06, 2009

vou

Regresso, então, à casa que conheço
líquida azul e viajeira
a trajectória que começa
e que não se pode acabar.

Regresso aos grandes nevoeiros
sangue, sal e mortes doces
e beijos feitos para navegar
esta viagem que sou.

Chega já
desta acalmia dos sonhos
destes muros todos por derrubar.

Vou.
Deixo por fim a cidade.
Faço-me ao mar.

terça-feira, outubro 27, 2009

na estrada de Damasco

Choves-me gratuita
como a benção distraída dum deus ansioso,
a luz das certezas impossíveis.

Pintas azul o que era negro
e fazes canções dos meus silêncios.
Para a minha fome
trazes o corpo, o pão, o vinho.

Não te espero
quero-te. Não te chamo
sigo-te. Não te busco
perco-me.

Trazes
a súbita fé
a palavra nova e intocada
a doce loucura de acreditar
nas visões que nos assaltam no caminho.

quinta-feira, setembro 03, 2009

Ítaca

Em tardes de sal
e de inesperados pássaros azuis
que desenham rotas inevitáveis
no mapa da nossa cidade,
as minhas migratórias ilusões:
voltar a casa.

Descubro-te ilha sob os meus dedos
e bebo silêncios ternos dos teus areais,
vislumbre dourado no baço negrume
dos meus dias automáticos.
E avisto já a tua costa recortada
e o poema mais difícil de escrever:
voltar a casa.

Depois da longa guerra
na cidade que em mim trago sitiada
vencida a luta,
vencido o sangue,
vencida esta vida de esperança derrubada,
descansar, por fim,
no remanso
da tua mais secreta enseada:
voltar a casa.

sexta-feira, janeiro 02, 2009

hoje estou Clã - parte II

A Doença Do Bem - Clã


Tentei esconder a minha raiva
De mim, por ti
Não sei por quem o fiz
Avançou meus braços
Como a cura para o bem
E eu não quis deixar

Em ti pensei ouvir a minha voz
Meu ar, tão só
Tentando ser feliz
Diz quais os teus planos
Quem vais tu matar no fim
Quando eu acordar

Depois de ver o que acabou
De que vai valer a minha voz
Será que o bem nos faz sofrer
Por nunca o vermos existir em nós

E é tão bom sentir de novo o teu calor
É tão maior que o mais profundo amor
E é isso que me assusta
Ver-te assim denunciar
Quem eu não quis ser

E a mesma luz que nos guiou
Que nos trouxe aqui
Devolve-nos ao escuro
Antes do meu corpo arder
Sem promessas de um futuro
Só eu e os meus planos
Sem nenhum sinal de ti
Para me salvar

Depois de ver o que acabou
De que vai valer a minha voz
Será que o bem nos faz sofrer
Por nunca o vermos existir em nós

O que vai valer
Porquê esconder a minha raiva
O que vai valer
Isso é fugir da minha sombra

Depois de ver o que acabou
De que vai valer a minha voz
Será que o bem existe em nós

hoje estou Clã - parte I

Lado Esquerdo - Clã


O meu lado esquerdo
é mais forte do que o outro
é o lado da intuição
É o lado onde mora o coração

O meu lado esquerdo
Oriente do meu instinto
É o lado que me guia no escuro
É o lado com que eu choro e com que eu sinto

Meu é o meu foi o meu lado esquerdo
Que me levou até ti
Quando eu já pensava
Que não existias para mim no mundo

O meu lado esquerdo não sabe o que é a razão
É ele que me faz sonhar
É ele que tantas vezes diz não

Meu é o meu foi o meu lado esquerdo
Que me levou até ti
Quando eu já pensava
Que não existias para mim no mundo
(Carlos Tê)

terça-feira, dezembro 09, 2008

solar

Este sol que nasce
tão lentamente
sobre a montanha fértil do teu corpo,
chão dos futuros que corremos
na rota que os astros nos traçaram
nesta estrada solar só para nós
atravessando este continente vago esta cidade ausente
até esse dia tecto casa cama sol
que nasce
tão lentamente
dentro de mim.

quinta-feira, dezembro 04, 2008

tóxico

Trago-me em súbitas revoluções de cianeto
e invento-me um mal nocturno e pardo
feito das minhas esperanças
flores tóxicas
no sonâmbulo luar que desmaia.

Sento-me nas pedras a ver se me vejo
passar nas calçadas doutras verdades
mais verdadeiras do que estas palavras que me ofereço,
cansado consolo de basalto
no sonho clorídrico do teu corpo sopro vulcão.

E se nada mais resta,
invento cidades
paradas na espera-hora-carbónica da destruição.

E se me cansam os braços
é porque trago sempre esta armadura
oxidada a encerrar o coração.

segunda-feira, dezembro 01, 2008

quase plágio

Sinto-te nas linhas da mão latejante
viva imensa e forte
como os sonhos das montanhas de infância,
os lugares onde pertenço.

Sinto-te multidão
onde todos os corpos
são o teu corpo
com os teus silêncios
mais inteiros que a verdade.

Sinto-te no vento
desses beijos que me enchem
a boca de madrugada a saber
a futuro.

Sou esta espera
determinada do sonho,
de correr a nula distância
de ultrapassar o tempo inútil
e ser teu.

sábado, novembro 29, 2008

negro

Como se atreve Lisboa
a imitar as silhuetas inesperadas do teu corpo
nas sombras nocturnas
desta dor desesperada?

Como se atrevem as pedras a ecoar-me
passos teus
e os sons da noite abandonada
a tentarem a imitação das palavras
a mais do nosso amor?

Como se atreve a chuva a lançar-me na cara
esta veracidade incontornável da carne,
a escondida virtude,
esta realidade muralha
da tua ausência?

E acho sem querer o arco
íris das tuas coxas erguidas.

Desafio o céu.

E os sons de mar em que me apago,
o chamamento longo da morte que preciso
a rirem ondas sobre a minha solidão,
a estéril ideia sombria
a sabedoria que escorre inútil
sobre o vazio da minha mão.

quinta-feira, novembro 20, 2008

Sereia

Trazes as palavras pão
das lonjuras da minha fome.
Ofereces mundos que mudam o beijo,
dos céus imaginados às entranhas da cidade.

Trazes um medo novo ao meu medo derrotado.
Ris
e iluminas o anjo triste que há tanto trago emparedado
em tijolos de saudade.

Quero soltar amarras
e oferecer pano à voragem da entrega.
Dar-me inteiro à odisseia do meu espanto.

Queria não ser nada
mas ser verdade.
Queria ver-te despida a pairar sobre a amurada
a embalares sonhos no teu canto.

amanhã

Amanhã
amanhã
amanhã
seremos fortes
e havemos de beber
a seiva do dia que inventarmos.

Amanhã
vamos nascer outra vez
na luz dos beijos
que não podiam esperar mais.

Amanhã
haverá palavras libertadas
na água da verdade.

Hoje
a noite que passa
este tempo derrotado

Hoje
a terna raiz
de promessa:
amanhã
amanhã
amanhã

[agradecimentos devidos a W.S.]

terça-feira, janeiro 01, 2008

Ano Novo

Trago um peso
muito mais cinzento do que a água
destas nuvens.

Trago um desespero
muito mais sincero do que estas ondas
que têm mesmo de rebentar.

Tenho uma raiva partilhada
sou da miséria mesma
dos bairros do mundo
espartilhado
alienado
exangue.

E por isso vejo
A desenhar-se na paisagem
um avião de papel
das ilusões dos que esperam
que das pedras brote o vinho das
suas bodas desiguais.

E por isso ouço
o surdo rugir dos séculos todos
que se levantam
acusadores
para assaltar o céu.

E por isso cheiro
o mesmo medo que nos abraça
a mesma sanguínea condição mortal
da dor que nos engolfa.

Mas não faz mal...
A dor já nos doeu tudo o que nos podia doer.
A dor morreu doendo
na nossa alma mais profunda.

e por isso provo-te
futuro
mulher da minha liberdade
de ser homem por contraste.

A teu lado
sei
dos futuros
braço a braço
que faremos.

E o mundo há de sorrir.
Quer queira
quer não.

quarta-feira, novembro 07, 2007

a un capitán de navío

Sobre tu nave —un plinto verde de algas
marinas,
de moluscos, de conchas, de esmeralda estelar,
capitán de los vientos y de las golondrinas,
fuiste condecorado por un golpe de mar.

Por ti los litorales de frentes serpentinas
desenrollan, al paso de tu arado, un cantar:
—Marinero, hombre libre que los mares
declinas,
dinos los radiogramas de tu estrella Polar.

Buen marinero, hijo de los llantos del norte,
limón del mediodía, bandera de la corte
espumosa del agua, cazador de sirenas;

todos los litorales amarrados del mundo
pedimos que nos lleves en el surco profundo
de tu nave, a la mar, rotas nuestras cadenas.

Rafael Alberti
(marinero en tierra - 1924)

segunda-feira, julho 16, 2007

cartografia do destino

Nas agonias simétricas do meu destino
oceanos circulares da tua face
navego as brisas irredutíveis
deste desejo

pelos teus astrolábios
vaga a vaga
vento a vento
e fome a fome
até ao fim das coisas ignotas
até à distância dos corpos

nesta nau de palavras inquietas
para lá dos meus trópicos de dor
rumo ao sol
rumo ao sul
rumo ao sal
da vida inevitável.

quinta-feira, julho 05, 2007

gaivota

Tu sabes
de cor os horizontes todos que atravesso
os promontórios de sombra que derrubo
a maré que trago em ti.

Tu sabes
destas palavras
entre nós e a liberdade
a espuma do nosso
discurso ensaiado.

É no sol
que te encontro gaivota
de ilusões a tracejar
o tempo sempre adiado
das nossas descobertas.

Voas. Sabes?
Aplacas as tempestades do peito
e trazes o futuro incerto gravado
nas asas brancas abertas.

segunda-feira, maio 14, 2007

cais de saudade

Os meus olhos perdem-se
no horizonte irredutível
e no silêncio solene
do rio que passa.

Esqueço-me das horas
nesta espera inventada
faço do meu corpo o corpo da cidade
das esperanças que se ficaram na volta do mar.

Confio
num azul que não termina
numa vaga que se entrega
e nesse chamamento estrangeiro
que não se pode apagar.

As minhas mãos salgadas
fazem fé
da espera que sou
neste cais afogado de saudade.

Um dia hás de voltar.

terça-feira, fevereiro 06, 2007

a todo o pano

Trago o corpo deslumbrado
da vastidão que roubámos aos continentes,
como erguemos, brincando,
o peso inenarrável das distâncias.

Trago a boca salgada
das certezas que abandonei
nas viagens
pelas praias do teu ventre.

E nasci para isto:
arrasar horizontes
como plantas dóceis dobradas ao vento.

E para isto existo:
engolir oceanos
de inquietação e abandono.

Vivo
à espera da maré
do teu olhar,
do teu sopro verde verde
para enfunar as velas
do meu sonho.

sexta-feira, dezembro 29, 2006

liberdade

Saboreio-te secretamente
o nome no fundo da garganta
- esse grito estrangulado.
Trago-te no fundo
dos olhos destas tristes manhãs
que não me trazem
o teu riso de criança.

Dou-me todo a esta Cidade
do teu corpo
de colinas e deslumbramento
alheio.
Vou longe
atrás deste tempo lento
da minha esperança.

À espera dum futuro de palavras inventadas
mais reais que a realidade.
Quando falarem os corpos
ouviremos a verdade
desse verão que se oferece
nas bocas abraçadas,
nas nossas almas amarradas
à liberdade.

quarta-feira, novembro 29, 2006

you are welcome to elsinore

Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar

[MARIO CESARINY VASCONCELOS]

Uma parte de nós que morre com ele
Uma parte dele que vive connosco
Sempre.
Até já Mário...

terça-feira, novembro 28, 2006

afirmação

O nosso amor semeia
primaveras imprevistas.

O nosso amor rompe
a circularidade irredutível
dos dias automáticos.

O nosso amor destroi
mentiras líquidas,
inconscientes.
e queima livros empoeirados,
ensopados de medo.

O nosso amor descobre
mãos migratórias
num continente perfeito.

O nosso amor
semente derrota
todos os invernos.

sexta-feira, setembro 29, 2006

o meu segredo salgado

Escreves
os poemas que nunca vi
na minha cara
e trazes um rio que ninguém sabe.

Acendes
faróis abandonados
na minha costa recortada
de medos.

Ficas nua
a brincar com a tempestade.

Levas-me
oculto no teu corpo-navio
na viagem impossível do teu olhar
a um continente sonhado.

Cantas
essa luz que transfigura.

Escondes
o meu segredo salgado.

sexta-feira, setembro 15, 2006

regresso a casa

E recomeça a minha espera proibída
esta dor familiar
espero
nesta angústia consentida
em que vou queimando a vida
sem nada por que esperar.

Espero não
voo.
Sofro não
sonho.
Calo não
digo
nesta noite
de destinos por cumprir
a vontade imensa de chegar.

quarta-feira, setembro 13, 2006

navegação

Arrebataste-me os amanhãs
para da noite fazer
camas
e fogueiras
e canções embriagadas
para espantar
essa dor azul
das madrugadas.

Não sei do que sou capaz
se da raiva
ou se do medo
se da esperança quebrada
ou se das cinzas da idade
virá uma ave dourada
anunciar por fim a claridade.

Sigo automático
as flechas na minha carne
corrompida de saudade
e deste velho medo vermelho
deste sonho familiar.

Corro
encontro-te
toco-te

muito mais além

Abandono por fim a cidade.
Faço-me ao mar.

quarta-feira, setembro 06, 2006

amor vem chegando a hora

Amor vem chegando a hora
da implosão definitiva
dos horizontes falsificados
das palavras banais.

Amor vem chegando a hora
da água se tornar vinho
e dos meus sonhos impossíveis
assumirem o seu estatuto
de maioridade ficcionada.

Amor vem chegando a hora
e tenho medo
dos monstros que a noite tem dentro
do negro que trago em mim.

Amor vem chegando a hora
de estilhaçar esta realidade que não serve
e este mundo
pequeno demais para o nosso desejo.

Amor vem chegando a hora
de matar este tempo
que não passa e nos trespassa.

Amor vem chegando a hora
de acabar de vez com a dor
de reinventar a nossa cidade.

Vem chegando amor
a hora inteira
da verdade.

quarta-feira, agosto 23, 2006

velocidade

Vem.
Corre.

Molda o teu corpo
à geometria variável
das minhas ambições,
à velocidade
dos meus desejos
que esperam
por esperar.

Voa.

Inventa
umas asas
assalta os pássaros
da tua janela
e foge.

Corre.

E encontra-me
no cais do dia
na hora
em que o dia morre.

Faz como quiseres

mas corre.

segunda-feira, agosto 21, 2006

verão na cidade

Todas as ruas me lembram de ti.
As calçadas tristes que ensaiam os teus passos
e se entregam ao sol
com o mesmo abandono apaixonado
do teu gesto.

Todo este céu azul
a prometer o teu olhar
E um rio
que traz as palavras
que nunca te disse.

A cidade toda tem o teu cheiro.

Vagueamos
alheios
neste verão de chumbo
da tua ausência.
E há uma nova dor
a inventar-se
no vento que nos traz
os olhos
nublados.

Lisboa
suspira
pelo teu corpo
de mulher-cidade.

Lisboa
transpira
corre
sofre
e morre
em margens novas
de saudade.

quarta-feira, agosto 16, 2006

saudade

Dedico-te
as horas vagas
desta esperança
que inundou as ruas
de repente
acendeu nos olhares de toda a gente
uma luz inventada.

Entrego-me
voluntário
a este suicídio ansioso
de mentiras
e atravesso indiferente
estes incêndios
dentro de mim
trago uma manhã falsificada.

Dança nos meus lábios
essa palavra dourada
à tona da verdade:

trago a vida ancorada
no cais da tua saudade.

quinta-feira, agosto 10, 2006

maré alta

Cavalgas-me os silêncios todos
tocas-me fundo
no fundo de mim
essa manhã sonhada
dos teus sorrisos.

Adivinho-te
nestas palavras
que nunca tiveram sentido nenhum,
nesta cidade
de sonhos perdidos

e o meu desejo
é o trovão
nesta vaga
que se abandona
à maré dos sentidos.

quinta-feira, julho 20, 2006

tempo de amanhecer

A noite invade-me
de tantas maneiras
e muito
muito para lá da minha pele
quer encontrar
essa criança escondida
na evasão
dos olhos fechados.
A noite ainda procura
sonhos indecisos
que me olham por cima do ombro.
A noite traz-me
preso por velhas glórias
como o desfile silencioso
de soldados de chumbo.

Esta noite que me enche, inadvertido,
não quer ser outra coisa.
Apenas a tela dos medos futuros
decorada em azul.
Esta noite que me ama
não me traz promessas
nem conforto algum.
Nem palavras
nem destinos
nem caminhos
para percorrer.

Esta noite
não me leva a lado nenhum.

Basta!
É tempo de amanhecer.

quarta-feira, julho 12, 2006

agora que partes

Agora que partes
morrem os pássaros
no meu peito
na miragem desse verão adiado.

Agora que vais
esvaziam-se as ruas
da cor que prometiam.

Escrevo a última
das palavras
que não te disse

uma palavra a mais.

agora que partes
agora que vais.

quinta-feira, junho 29, 2006

ainda há um poema

Gasta-se-me a pele
desta imensidão admirada
dos séculos amarelecidos
de mentiras.

Ando crivado de medos
a fugir do que busco,
perdido
em imprevistos
tremores de alma.

Engulo
toda a humilhação
que me ensinaram
e nunca se me despenteia
o discurso elaborado
e trago sentimentos
de pronto-a-vestir.

Trago a minha idade
toda nesta cara
de sonho apagado.

Mais ainda há um poema dentro de mim
com todas letras
que desenham a tua figura.

Mais ainda há um poema dentro de mim
com essas asas impossíveis
do teu olhar.

Mais ainda há um poema dentro de mim
e tem as garras da minha fome,

traz
a sombra negra
do meu desejo

indestrutível.

domingo, junho 25, 2006

ambição

Só porque não devia
dizer-te a cor
do teu cabelo irrequieto
na minha visão alterada
de todos os desejos.

Só porque a tua boca
não devia ser
a cortina do teatro
das minhas ilusões.

Só por decreto
alguém disse ser errado
perder-me
no teu sonho mais secreto.

Vivo
de desmedidas ambições.

tu

Tu.

Tu
que os muros esmagam.
Tu
que as árvores agitam.
Tu
nessa lua que engana,
nesse mar que me chama
p'ra me encontrar.

Tu
nesse riso que ofende,
nesse braço naufragado.

Tu
essa voz que acende
o meu desejo embriagado.

E se eu,
esquecido do teu nome,
me afogar em madrugadas
de sono angustiado,

vens tu
voando nesse beijo de silêncio
poisar
tão gentilmente a cabeça
no meu lado.

Calar-me os medos,
amar-me
como se eu fosse um homem a sério,
chamar-me
como se eu fosse um menino assustado,

vens tu
nesse teu mistério
de sacerdotiza do corpo dourado.

urbis mater

Porque é que me entrego
assim
à cidade?

O que é que me chama
aos seus braços
nocturnos,
às suas ruas
com fundo falso?

Porque é que danço
com os outros loucos
músicas intermináveis
silenciosas
inebriantes?

E destruímos toda a razão
em brindes suados
com olhos de chama
e cantares tribais.
Irmãos ocasionais
na mesma mesa,
barcos sem rumo
na mesma idade.

Depois,
muito depois,
dorido
cansado
ponho-me sempre
a digerir significados
a procurar sentidos
motivos
e esperanças
em sótãos desarrumados
de memória obliterada.

Não!

Não quero lembrar a cidade
mãe
que cala
(perdoa?)
os meus erros.
Que acarinha a minha loucura,
que faz desfilar para mim
manhãs luminosas
frias,
para que eu durma
e mais deseje.

Outra noite
outro silêncio saturado
deste animal de querer.

Outra noite
e mais um copo
para morrer
nesta cidade que tudo perdoa

aos loucos que dançam
morrem
dormem
em Lisboa.

jogo de azar

Todos os nomes
da minha tristeza.
Toda a cor
da minha revolta.
Toda a certeza do meu ódio.

Matéria fundamental
do meu pesadelo dourado
do meu verso rebuscado
sem rima
sem dobra
sem sal.

Corpo
do meu corpo
poluído.

Gesto
do meu gesto
abandonado.

Voz
coro cantiga
do meu protesto calado.

E és destino.
E és estrada
mal iluminada
sem certezas de chegar.

E eu que apostei tudo na partida
para fazer
esta fome
tão cansada tão sentida
enfim
cantar...

demiúrgico

Encontro-te por toda a parte
porque deves estar
na natureza das coisas simples
que, peça a peça,
luz a luz,
fazem de mim este reflexo.

Oiço-te neste silêncio
sussurado
de te sentir perto.

Dormes...

E reencontras
o sabor dos objectos que inventaste
e sopras o sonho
do nosso sol e chuva amargurado.
Dás à terra
esse poder dos frutos
das primaveras
que emergiram do teu ventre
esse primeiro dia
que nasceu deslumbrado.

Dormes
sonhas
e crias
a meu lado.

um todo maior que as partes

Uma parte de mim
enfrenta manhãs de desespero
engole autocarros nocturnos
de agressão.

Uma parte de mim
é cidade
suja de pobrezas
riscada de pressas
de passos
de fomes.

Uma parte de mim
é ódio
e escreve vermelho
praias absurdas
em olhares queimados.

Uma parte de mim
é trabalho dorido em corpos cansados....

Uma parte de mim
sobrevive
de gestos manipulados
e notas amargas,
nesta coisa alheia da vida,
nesta margem esquecida
de pedras.

Uma parte de mim
arde
nessa revolta que rasga o peito
nessa angústia
de que sou feito
nesta sede incontrolável.

Mas uma parte de mim
é braço
e derruba muralhas de injustiça.
Mas uma parte de mim
é aço
e não se verga
ao jugo fácil
do compromisso.

Mas uma parte de mim
ama
e por isso
quer mais.

Uma parte de mim
vive
cada vez que um punho se levanta
e, de coragem, declama
futuros sonhados.

Da própria razão
de quem caminha
sou parte
desta luta
que existe
em homens revoltados.

bairro clandestino

Somos feitos da névoa
dos caminhos de ferro
dos caminhos de pedras
onde se apagam
todas as cores
onde envelhecem
todas as idades por igual.

E as madrugadas chuvosas
em que o corpo responde
angustiado ao trabalho
que não espera.

E a madeira apodrecida
das paredes
onde não cabem
os olhos das crianças.

E as noites
infinitas
gotejantes
cheias do grito
silencioso
de mil pesadelos
de mil desesperos
vizinhos
irmãos.

Engolimo-los
até à última gota.
Entrou-nos nos olhos
como escuridão.
Colou-se-nos à pele
como a roupa molhada
das manhãs frias.

Aqui,
calámos todas as palavras
encurralámos
todos os subterfúgios.
A nossa fome
matou
todas as metáforas.

No silêncio
caiu
toda a nossa revolta.

E temos só a verdade
crua
de homens
mulheres
velhos
crianças
que nesta lisboa
clandestina
lutam
conquistam
trazem inteiro
esse direito
humano
de sonhar.

palavra difícil

O teu nome tão difícil
com todas as suas letras de incerteza
as suas vogais de promessa
sílabas doridas
som a som
braço a braço.

E se não te posso dizer
sei que sei.

E se não te puder ter
ao menos sei que lutei.

Porque ainda hás de ser minha
da cor
da minha vontade.

Tão difícil dizer-te
Liberdade.

sábado, junho 24, 2006

inquietação

Não é por nada
que devolvo esta loucura
cada um dos meus actos
tem uma cor
e um cheiro
garras
e olhar.

Cada passo que dou
- sei-o
é só um empréstimo de espaço
num mundo que não me serve
uma braçada de afogado
com pressa
de mais mar.

Não é por nada
que engulo palavras
que trespasso emoções
de sangue
e da noite que sei.

Não é em vão
que atravesso vitrinas
que percorro
corro corro
tantos corredores vazios.


esse destino
na esteira
de todas as minhas manhãs.
A mesma fome
na minha refeição
- sei-o.

Eu conheço
este caminho

inquietação.

coisa alguma

E agora,
só,
espero essa partida definitiva dos significados
literais
morais
nuclearmente errados
na sua cor de despedida.

E agora,
só,
conquisto
néons enfeitiçados de perguntas
saboreio
soberano
o meu reino de mentiras.

E agora,
sou um tirano
de adormeceres,
sou um mendigo de céus,
um prisioneiro
de palavras.

E agora,
só,
espero
coisa alguma.

não vou

E este corpo
demasiado
gasto de palavras
e erros
e condenações alheadas
insensatas
vozes que gritam
o mesmo desespero
gémeo
mudo
de não nos sabermos.

E na nossa busca
gémea
muda
de querer acreditar que terminou

onde achamos ainda
a força
p'ra dizer
que não és
que não sou?

Mas sei
que não amo
que não quero
que não vou.

quinta-feira, junho 22, 2006

tridimensional

Pedir o impossível.
Escolher consciente
a febre silenciosa.

Perder noites
e olhares
em esperas
sem esperança.

Pintar a cidade
duma cor que não existe.

Tropeçar de propósito nos dias.

Cair.

Hesitar entre a morte e a vida
e a vontade
de te ver sorrir
- as três dimensões
do meu universo,
inventadas
neste verso.

sol

Sol...

Esperança de ouro
a brilhar escondida
numa noite melhor,
numa hora inventada.

Certeza muda
que não consigo
em mim calar
pura
vontade de cantar
uma vontade demais
calada.

Sol...
que todos os dias
me nasces na alma
com o sabor a madrugada.

segunda-feira, junho 19, 2006

não fales

Não fales.

Não vamos cair
nessa armadilha
de palavras inúteis.
Não falemos da dor
nem de razões.
De nada nos serve
discutir a moral dos outros.

Cala-te.

Deixa o teu silêncio dourado
cantar oceanos
no meu peito.
Deixa esta doce renúncia
que floresce
nas minhas madrugadas abismadas.

Deixa o meu coração marinheiro
bêbado na margem da ilusão
naufragar
no silêncio do teu amor azul.

Não digas nada.

quarta-feira, junho 14, 2006

oiço-te

Oiço-te, amiga.
oiço-te nesse silêncio
que escorreu
da cara da rua
e dos olhos da gente
e encheu a cidade
dessa tranquilidade ofegante,
dessa calma desesperada.

Oiço-te, amiga.
nessa verdade calada
que se entrega ao mar,
no canto oceânico
do meu amor naufragado.

Oiço-te, amiga.
nesta esperança líquida que cai

morna benção
dum verão adiado.

Oiço-te.

terça-feira, junho 13, 2006

este não é meu

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco.

Mario Cesariny de Vasconcelos
[poema]

sexta-feira, junho 09, 2006

trago-te

Trago-te
oculta
nos meus dedos.

Trago-te
doce no meu peito,
chocolate
das manhãs mal comportadas
da minha infância.

Caminho embalado
pelo ondular
invisível
do teu vestido.

O teu sorriso
doura as searas
dos meus sonhos.
E o teu silêncio
canta
segredos
debaixo da minha língua.
E o teu olhar decreta
incêndios de verão.

Que bom!
Ninguém sabe
que levo o sol
escondido
na minha mão.

quinta-feira, junho 08, 2006

visitação

Sonhei que vinhas
voadora
repentina
à minha janela
e invadias-me a solidão
e pintavas-me o corpo
do teu azul-mulher.

Entravas
brusca
brisa
nas minhas ideias velhas velhas
e escrevias a suor
o teu nome
nas minhas costas.

Beijavas-me
- e ninguém sabia
deste luar que me ilumina
por dentro.

Sonhei que vinhas
a cidade dormia
parada no tempo.

quarta-feira, junho 07, 2006

sou

Trago mortes
nos dedos
de não te ter.

E sou feito apenas
deste gosto amargo
da minha boca
longe da tua boca.

E sou feito apenas
deste desejo que destroi
universos
dentro de mim.

Só porque sei
das montanhas que o teu sorriso move
dos pássaros que te voam dos olhos
das cidades felizes do teu pensamento.

Sou
essa bandeira rubra do desejo
desfraldada
no vento.

Só porque conheço
essa criança que chora
com medo da noite inventada,
desta noite de que sou feito.

Sou
porque sei
que és tu o cavalo selvagem
que me galopa no peito.

terça-feira, junho 06, 2006

tu que não sabes

Tu que não sabes.

Tu que ignoras
o meu destino
com o mesmo à vontade
com que vestes a lua
ou usas o sol
para coroar
o teu alheamento.

Tu que me mostras,
sem saber,
o céu esvaziado
que sou.

Espelho.

Palco puro de amargura.

Resto
de esperança caída.

E nem desconfias
de como a minha noite
se cumpre em juras
por jurar.

De como nos meus olhos
se acendeu
o teu olhar.

sair

Sair.

Para a rua
para a noite
ou para a morte
- tanto faz.

Fugir?

Não.

Procurar
no sangue
no alcool
ou pelas caves
uma ideia perdida,
uma idade transvestida
a esquecimento.

Mentir?

Ou dizer a verdade
- que importa?

Mas sempre queria
arrasar a cidade
arrombar essa porta

simplesmente

sair.

domingo, junho 04, 2006

os meninos-poemas

De que vale
a minha palavra ociosa,
o meu olhar esvaziado?

De que vale
esta vida a imitar a vida
neste palco
em que esgoto
o gesto todo
alucinado?

O que me vale
é esse teu barco dos olhos
a prometer viagens
no teu oceano dourado.

O que me vale
são esses meninos-poemas
que a brincar pintam de azul
o meu coração embarcado.

quarta-feira, maio 31, 2006

para lá de toda a razão

Nada sabes
desta dor
jornada
de esperar
em vão.

Não conheces a minha
esperança
jangada.
Não sabes
desta vontade
que caminha
nem desta vida naufragada
na tua mão.

E a verdade que ignoras
desfaz-se em nada
porque eu carrego
a esperança toda errada

Para lá de toda a razão.

terça-feira, maio 30, 2006

chegadas

Todas as manhãs precisam
de ruídos de mar
e cigarros
e réstias de luz nocturna.

Todas as manhãs exigem
um esforço humano
de esquecer
pesadelos
e noites perdidas.

Todas as manhãs são partidas
do cais das madrugadas.

E eu insisto
em abandonar braços
e sonhos
e olhares
em busca de um mar verdadeiro
em praias douradas.

Todas as manhãs parto.

Até que todas as manhãs sejam chegadas.

verdade

Acompanha-me um poema
engole-me uma flor
vive no meu olhar
uma janela branca de dor.

uma súbita esperança de amor...

Inventam-me as árvores
renega-me a cidade
vive na minha mão
outro nome para a liberdade.

Cresce secreto
no meu coração
um canto longo de ausência,
um sabor de felicidade,
ao esquecer o que me lembro,
ao inventar o que não sei

se é poesia, loucura
ou realidade.

E devoro esta verdade.

nudez

Nus
já não há mentiras
e as palavras são reiventadas
reescritas
para a verdade
que nunca disseram
e os céus tornam-se baços
envergonhados
do erro que iluminaram.

Mas esta é uma viagem breve...

Depressa apanho
as minhas mentiras
amarrotadas do chão,
e recolho na boca
a explicação dos sabores,
e uso óculos à prova de dor.

Depressa recomponho,
como outro qualquer farsante,
o engano enovelado
da poesia
e do amor.

confissão

Peço tudo às palavras...

Exijo de cada frase
uma alma nova.
Assalto os nomes
em busca de um significado
real.
Saqueio os adjectivos
à procura de cores
que possam pintar o meu dia.

Para mentir
morrer
ou mudar o mundo
roubo poesia.

palavras fáceis

Tanto o que não digo
porque não há ninguém para escutar.
Tanto o que minto,
tanto sofro do que não sinto,
tanto medo
de não falar.

E tanto de tão pouco faço.
Tão pouco o que sou capaz.
Tanto crio que me desfaço
neste perdido rio
onde a alma se desfaz.

E comigo as palavras
são ilusões douradas
atiradas ao ar.
Mentiras de vento
em noites paradas,
reflexos de mim
na água do mar.

Comigo as palavras
são lanças voláteis no peito da tarde.
Promessas não cumpridas
no abandono do sol agrilhoado.
Em mim cada palavra arde
como um sonho puro de medo
como um sonho desesperado.

esquecer

E agora que começa
a noite a sério
tiro a roupa
e tiro a cara
mal passada
amarrotada
do dia silencioso.

E agarro-me aos poemas
como à última réstea de calor
num outono fugitivo
como ao teu último sorriso.

Com o desespero da busca
mas sem nada no horizonte.

Cego.
- E nada há aqui para ver!

Atiro-me à noite
com a caneta engatilhada
em súplicas.
Atiro-me ao sono
com esta fúria desesperada
de esquecer.

ter-te

Ter-te assim ao meu lado
proibida
a construção do não amor
obrigatória
a solidão da insónia ressonada.

Ter-te assim ao meu lado
distante
já a memória do prazer
interdito
o descobrir dos sonhos do corpo admirado.

Mas ter-te assim ao meu lado
fechada
escondes no teu seio a esperança
brilhante
a manhã que virá nos seus tentáculos de promessa
cumprida
a noite feita de dor.

Mas ter-te assim ao meu lado...

segredos

A tua saliva é alcool solidificado
na minha boca,
bebedeira adiada
na minha noite.

trago comigo a marca
vertiginosa
do teu corpo.
Espreito
indeciso
a fonte dos teus abismos.

Faltam-me as mãos
para tanta vontade de tocar...

Entre o morno e o quente,
escolho a vitória
de não estar só.

Entre o tempo e o dia,
acaricia-me
a secreta alvorada
dos teus segredos.

Entre a causa e a culpa,
resta-me um sol
escondido nos teus dedos.

p'ra mais te amar

P'ra mais te amar
vivo.
P'ra mais te amar
respiro as sombras e os cheiros
das noites dormidas
solitariamente.

P'ra mais te amar
mutilo a manhã do seu sorriso
e deixo o meu grito
estilhaçar as máscaras
de sobriedade.

P'ra mais te amar
amo.
E dou-me todo ao vento violento
de amar tudo.

P'ra mais te amar
luto.
Luto todas as noites
com os monstros dentro de mim
e todos os os dias
com os que estão lá fora.

P'ra plantar árvores no teu nome
P'ra colher o amanhã das almofadas
P'ra percorrer as ruas
a cantar...

Luto
P'ra mais te amar.

sentinela

Não pensem
que não aprecio a vossa preocupação.
- Mas não há muito que fazer com ela...

Não pensem
que não sinto a vossa comiseração.
Há muito que vivo com ela...

Não pensem
que não ouço o vosso conselho amigo.
É que agora não tenho tempo para isso..

Não pensem, enfim,
que não vos lembrei nas horas amargas do desespero.
Só que hoje bebi demais...

Adormeçam agora
irmãos nocturnos

É o meu quarto de sentinela
aos vossos sonhos.

segunda-feira, maio 29, 2006

noite

Na luz alugada da noite
sonhei
que te achava
neste gesto indeciso,
nesta palavra vaga.

Desejei
todas as horas
livres
dos teus olhos,
os minutos
libertos da tua boca
a descobrir-me.

Todo
esse teu tempo
firme
a oferecer
um corpo
à minha esperança inventada.

Sem peso.
Sem dor.

Dás-me a alma
toda nua
na noite espantada
do teu sabor.

sul

Assaltar-te os lábios
para me encontrar homem
para todas as tuas fomes.

Cumprir-te
essa promessa
do teu corpo nervoso
nas minhas mãos.
Arrancar a alma
de cada centímetro da tua pele.

Dormir
no império dos teus cheiros.

Beber a tua água de descobertas
e dar-me,
na madrugada tão azul,
a minha oferta simples de olhos
e beijos.

Queria nascer outra vez
a sul
dos teus desejos.

lisboa

Tantas palavras
na minha cidade
que fazem do céu
este azul tão profundo de perder a alma.

Tantos passos perdidos
em busca de amores vãos,
tantas lágrimas
que escorreram das tuas colinas
para alimentar
esse rio omnipresente
da nossa saudade.

E dos cais das partidas
ao canto muralhado
dos olhares,

há essa vontade
de ti
que voa.

Amo-te a cada esquina
minha
lisboa.

queda

Tão frágeis
estes fios
que me seguram à mão
do destino bonecreiro.

A minha força de vidro
tão depressa
se torna
cacos
que não se apanham.

Caio
por tudo e por nada,
mas por tudo
me levanto.

Passo a vida
a tropeçar de espanto...

chuva

Não tenho
dias que cheguem
para tantos destinos
na tua pele.

Vidas que não vivi
pelos teus braços,
mortes doces
nas tuas unhas,
trevas
que bebo da tua boca

e broto de carícias
os rios secretos do teu corpo.
Humilde,
purifico-me no teu beijo mais ardente.
Soberbo,
conquisto-me de suspiros teus.

Chovo
na tua areia quente.

adeus

troco estes passos pesados
da tua espera

por essa dor simples
subtil
do luar estampado
na tua despedida.

-Adeus!
-O que for de deus,
que a nós pertence
este reino de olhares,
de oráculos subjugados
de desejo.

Que é nosso
este silêncio rochoso
e húmido
do teu corpo ausente.

Porque é só meu
esse rugir dos séculos
na tua pele,

na minha palavra

na minha dolorosa esperança

infinita.

hoje

Nos dias inteiramente desperdiçados
do nosso prazer,
nessa colher ensolarada
de xarope primordial,
está a origem das maldições.

Na veia
e nos olhos.
No braço
e no beijo.
Na mão
e na arma.
No choro
e no sono.
Nesse caixão
que sempre chama
e na mulher que nos ama
usada do tédio
velho
do nosso cansaço.

No azul
e nos futuros inventados,
no negro
do nosso medo.
Na certeza
(afinal, o único absoluto)
da nossa grande dor cósmica
pessoal e transmissível.

Esta noite que enche tudo...

Como se a nossa pequena esperança
fosse a seara
eterna
de todos os tinteiros.

Finais
como tiros de espingarda
na madrugada dos condenados.

Negros como hoje.

há (de haver)

A fogo
neste indiferente azul e branco
as minhas alucinações todas.
Os monstros reunidos em congresso
de desacreditar o meu destino.

Sou eu que traço as perguntas
Sou eu que trago as respostas

Nestas noites automáticas
da minha esperança,
na perna traçada da minha fome.

Neste correr
correr
morrer

Inventou-se
uma flor para cada estufa
desenhou-se um escravo
de cada liberdade.

Mas ainda há
(de haver)
sangue que jorra
e mãos penduradas que gritam
esperma entornado
(cedo demais).

Sim.

Porque há
(de haver)
homens
por trás das palavras
S
E
M
P
R
E




(A Cesariny, Vespeira, Oom, Cruzeiro e o resto da malta)

amo-te

Porque é hora de coisas definitivas:
amo-te.

Porque é tempo de transcender:
quero-te.
Porque só tu trazes
o fim
de todas as minhas existências de agonia.

Porque a ascenção do teu peito
é o caminho final
do meu corpo emplumado.

Porque me obrigas,
tão gentilmente,
a peregrinações infinitas
sob chuvas de verão:

E reincarnas-me homem
e cumpres-me o calvário todo,
trazes
tão simples
redenção.

tejo

Corpo azul atravessado na paisagem
que a minha mão gelada, inútil,
não detém.
És a ilusão da viagem
que nos navega o peito,
da viagem que somos.

Há um destino que te chama
e nem abrandas à passagem
da cidade cinemática.

Nada sabes deste povo que te ama...

levas-lhe,
silencioso,
os restos
as mágoas
e o olhar
nessa competência fria
de exército em terra devastada.

Tu passas
como eu passo,
apenas.

O nosso elemento é outro
e não havemos de ficar prisioneiros
de miragens
de pedra
de gente
e do desejo,
desesperado,
que levas a um outro horizonte.

quinta-feira, maio 25, 2006

querer

Como aves dilacerando a paisagem.
Como esse luar imperdoável de verão.
Como quem inventa o futuro na palma de cada mão,
vazia...

Como um botão de flor
desenhado a vã esperança.
Como facas famintas no coração da noite
a rasgar desejo na minha carne.

Como quem tudo perde.

Como quem tudo quer.

Querer-te
como te quero
como te espero
como morrer.

água

Um reflexo dourado
a iluminar
o meu silêncio

e uma palavra indizível,
muda,
a bailar-me na boca,
à tona da verdade.

Uma noite de ouro,
no passado,
no futuro,
a servir-me de vida
enquanto morro.

Mais um sonho ôco
a fugir da realidade.

E a felicidade?
A felicidade era arder
de voar tão alto,
a felicidade era morrer
de te ter tão perto.

A felicidade eras tu.

Caminhar de água azul
a inundar este deserto.

oferenda

Trago fogo nas mãos
e uma oferta saudável de ácido
em cada poro.

Essa vontade
de ultrapassar
o mundo
e a roupa
e adormecer num corpo irmão
esta fome que me escava.

Trago nos olhos
manhãs de acordar ao teu lado.
A ideologia da nudez
o caminho da felicidade...

E essa vontade de te achar
numa melodia simples de verão,
perdido no teu pomar.

vem o verão

Trazes-me, sem saber
esse verão secreto
errado?
certo?

Que importa?
As letras todas do meu nome
compõem novos sentidos
e loucas,
cantam esperança que não existe
cada vez que te sentem perto.

E já não conheço
o bem e o mal.
Desaprendi
o que os livros me ensinaram.

Renasce-me no peito
esta seara dourada
de sonhos,
este ofício duro
de esperar
de crescer
de recomeçar de cada vez a madrugada.

Vem o verão
aceito
toda a fome do estio
que os teus olhos
trouxeram.

primeiros passos

Escrever-te
princesa azul
neste abraço que não acaba nem começa.
Suar-te, dia a dia
este sonho
puro de ansiedade.

Medir-te
no olhar
as paisagens infinitas
desse continente
que não verei.

e tão estranhamente
conheço
tão bem...